Psicologia da Religião

J. Costa Jorge

 

 

Deus na adolescência – I

Fase da personalização

 

Quando falamos de adolescência, imediatamente nos vem a ideia de crise e de mudança. De facto pelos constantes conflitos, o despertar das várias interrogações, a grande instabilidade que experimenta o adolescente, leva, alguns autores a chamar-lhe a idade do armário. Otto Rank diz que a adolescência está marcada pelo “trauma de um novo nascimento” como expressão desta procura da redefinição da sua identidade, das suas convicções e projectos, de um espaço para nascer de novo. Erikson acentua a tarefa fundamental do adolescente na superação do conflito entre a formação da identidade e dispersão de identidade, o que provoca grande sofrimento e confusão e sofrimento ao adolescente. A identidade e a autonomia são as tarefas fundamentais do adolescente que dá impulso a várias mudanças:

Mudanças físicas. É o tempo do amadurecimento sexual e do crescimento em peso e altura. A pressão dos impulsos sexuais e hormonais causa uma grande confusão e perturbação ao adolescente.

Mudanças cognitivas. O conceito de relatividade e a capacidade de “sentido crítico” abrem ao adolescente novos horizontes.

Mudanças afectivo-emotivas. Acontecendo a progressiva separação do contexto familiar, o adolescente aproxima-se do grupo de pares que se revela essencial para a construção da identidade. Ao mesmo tempo e ligado ao desenvolvimento da sexualidade, dá-se a explosão de novas emoções que vão transtornar o adolescente nas suas relações com a família e com os amigos.

 

Assim neste contexto iremos considerar, em primeiro lugar a religiosidade da pré-adolescência, que para além das características anteriores, evidencia algumas próprias: a nível psíquico, para além do espírito crítico, temos uma necessidade de segurança doutrinal, a descoberta de intimidade, o despertar da liberdade e o deixar de ser criança para ser adulto. A nível social, acontece a crise de independência, a afirmação da sua personalidade, um regredir egocêntrico, a atracção pelos heróis e pelos ideais da vida adulta.

A nível da evolução religiosa entramos na fase da personalização. Coloca-se então o problema das dúvidas de fé, dos sentimentos de culpabilidade de origem sexual. Faz uma ruptura com a religiosidade imposta.

 

Que imagem de Deus vai o adolescente construindo dentro de si?

A ideia de Deus está ainda muito marcada pela racionalidade e pelo ensino catequético. Nesta idade respondem com grande exactidão a perguntas sobre os atributos de Deus e sobre a criação. O adolescente concebe Deus, às vezes longínquo e abstracto, mas também como “Alguém”, como uma Pessoa entrando numa relação existencial com Ele. O animismo perde terreno nesta fase, embora se verifique alguma magia e antropomorfismo, onde, muitas vezes,  a oração é a busca de apoio pessoal.

Com frequência, o adolescente é dominado por sentimentos ambíguos em relação a Deus, entre confiança e o temor. Tem dificuldade em compreender como o amor de Deus é compatível com o mal físico e moral no mundo. Surgem as tensões entre razão e fé. É também frequente que, diante das dúvidas religiosas,  encontremos alguma indiferença religiosa.

O  adolescente frequenta a igreja, reza e participa nos sacramentos. Valoriza o rito. Pode fazê-lo apenas do ponto de vista ritualista, dado que a magia tende a prolongar-se para além da infância.

O grupo dos pares desempenha um papel importante no desenvolvimento ou bloqueio, da religiosidade do adolescente. Tanto pode levar ao conformismo a nível dos comportamentos e da percepção utilitarista da religião, como revelar-se o lugar privilegiado para o desenvolvimento da vivência religiosa.

 

Implicações pedagógicas

É fundamental utilizar as experiências educativas em função da construção de identidade: conhecimento pessoal, auto-descoberta, construção da auto-estima.

A importância do diálogo personalizado entre os adolescentes e os pais, professores ou catequistas.

Os pais têm um papel importantíssimo ao apresentar um quadro de valores e de comportamentos que exprimam uma vivência religiosa coerente com a realidade.

Proporcionar experiências formativas em grupo ou individualmente: retiros, campo de férias, voluntariado, etc.

O mais importante é uma pedagogia activa com sabedoria que permite ao adolescente um espaço aberto para a construção dos seus ideais e da sua religiosidade sem cair na rigidez moral ou nos dogmatismos doutrinais.

 

J. Costa Jorge

Psicólogo Clínico