Opinião

Adelina Ribeiro

“A vida seria sórdida sem o sonho”

 

Utopia e literatura foram os dois grandes temas de uma conferência de imprensa de Mário Vargas Llosa, um dos escritores mais importantes da literatura mundial actual. O autor de “Conversa na Catedral”, ou do mais recente romance “O Paraíso na Outra Esquina”, considera que a marginalização da literatura, a acontecer no futuro, “traria um grande empobrecimento, não só à sociedade como à própria vida”.

No que se refere às utopias, afirmou que são bem-vindas, mas manifestou-se “contra as utopias políticas colectivas”.

Este escritor peruano – cujo nome figurou entre os mais apontados como candidatos sérios ao Prémio Nobel da Literatura deste ano – não afasta a hipótese de a literatura se transformar em algo “marginal”. Numa época, onde impera o grande domínio dos meios audiovisuais, acredita que  esta não pode competir com a televisão e o cinema, “a riqueza não são as imagens. São ideias materializadas em palavras que se dizem nos livros”. A boa literatura não é mais do que manter um alto nível de criatividade, daquilo que é diferente, do que não temos e com  que sonhamos.

 

A propósito de sonhos e utopias, Vargas Llosa explica que os dois personagens da história, representam duas maneiras diferentes de utopia. Ambos sonham trazer o paraíso para a terra. Se para uns, a ideia de paraíso é uma sociedade de liberdade e igualdade entre homens e mulheres, sem exploradores nem explorados, para outros, o paraíso poderá ser uma sociedade, onde a beleza é património de todo o Mundo e o prazer um valor universalmente respeitado.

Em termos genéricos, Vargas Llosa fala, de uma forma convicta, deste conceito de utopia: “não se pode viver sem esse sonho da perfeição, do absoluto. A vida seria invisível,  seria de uma mediocridade, de uma sordidez total, se desaparecesse esse sonho”.

Assim, nesta sequência de ideias, conclui-se que a utopia deve ser alimentada. Só se torna prejudicial quando é colectivista. Sendo assim, a ideia de felicidade subjacente à utopia, jamais pode encarnar num projecto colectivo.

Senão vejamos, na história do nosso século, todas as tentativas de criar uma sociedade perfeita traduziram-se em verdadeiros acontecimentos apocalípticos: o nazismo, o comunismo, todas as grandes utopias colectivas, levaram a Humanidade à beira do precipício.

A ideia de que não se pode renunciar à utopia, é reforçada, por Mário Vargas, classificando-a como um motor que empurra o desenvolvimento. Os grandes cientistas, os exploradores, até os santos, representam de algum modo a materialização desse sonho utópico.

 

Conclui-se, de facto, que a vida seria realmente “sórdida” se não existisse esta magia, este rosto de felicidade, que quantas vezes se concretiza nesta realidade “o sonho”!